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Sementes Informais
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: sexta, 21 de setembro de 2018 - Hora: 10:15

A tentação barata que prejudica o agronegócio

A compra e o uso de produtos "informais" são prática comum no Brasil, principalmente em função da desorganização das cadeias produtivas, hábitos culturais dos produtores e da deficiência na fiscalização e na assistência técnica.

Nem sempre percebemos, mas o valor agregado de um produto é decorrente da tecnologia embarcada nele, investimentos, tempo de pesquisa, escala de produção, mão de obra utilizada, pagamento de impostos, atributos qualitativos do produto, concorrência, etc.

Não deveríamos jamais desconsiderar o investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico que existe nos produtos, seja em um alimento, máquina agrícola, automóvel, cultivar ou mesmo em um novo medicamento. Eu até entendo que, para uma população brasileira com imensas dificuldades financeiras e culturais o preço acaba sendo, na maioria das vezes o principal determinando para a compra. Porém, em termos empresariais e tecnológicos não pode funcionar assim.

A comercialização de qualquer produto ilegal além de configurar em crime, cria empregos informais, não paga impostos, gera menor renda para as empresas e resulta em menor fomento à geração de pesquisas e novas tecnologias, aspectos que, em longo prazo, prejudicam o subdesenvolvimento de um país.

Grandes empresas investem bilhões de dólares anuais para desenvolver um novo produto, desde a pesquisa inicial, passando pelo desenvolvimento técnico e uma gama de testes que objetivam assegurar a qualidade, segurança e aplicação prática deste novo produto. Desta forma, não é justo que outras empresas "copiem" a tecnologia e vendam a um preço bem inferior sem terem tido o investimento e os elevados riscos comerciais que as outras tiveram na criação do produto e no seu desenvolvimento. Investir em pesquisa e tecnologia é altamente positivo para as empresas, população, produtores, mas é uma atividade de alto risco, pois exige pesado investimento, recursos humanos qualificados e infraestrutura de ponta.

Assim, a engrenagem propulsora de um país desenvolvido é a ciência, tecnologia e inovação. Essa promoção reflete-se, ou deveria se refletir, em última análise, em mais empregos, melhoria na renda, na qualidade de vida nos serviços de saúde, distribuição de alimentos e redução da pobreza e segurança alimentar. Para que isto ocorra deve haver um arcabouço legal definido que assegure aos obtentores da tecnologia o retorno financeiro para o investimento feito. Infelizmente no Brasil, a tecnologia é vista, muitas vezes, como algo nocivo e que gera pobreza, dependência técnica e impacto ambiental.

Reconheço que temos problemas que poderiam ser mais bem equacionados como o valor e a forma de pagamento dos royalties e taxa tecnológica, oligopólio no setor de insumos e processamento, dificuldade na assistência técnica aos pequenos agricultores, mas o "remédio", ou seja, a proibição do uso de algumas tecnologias, como vem sendo exigido por alguns grupos não é justificativa para as dificuldades acima mencionadas, pois poderia matar nosso paciente ao invés de tratá-lo adequadamente.

De acordo com levantamento da Unipasto (Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras) acredita-se que a participação das sementes "piratas" no mercado de forrageiras possa chegar a mais de 30%. Número muito significativo se considerarmos que atualmente, o mercado de sementes forrageiras tropicais compreende um pouco mais de 20% do mercado formal de sementes do Brasil. Em cifras, isto representa um faturamento por volta de R$ 1 bilhão. Desse volume, 75% destinam-se ao próprio mercado interno e 25% para exportação.

Ainda, conforme pesquisa recente realizada pela Associação Paranaense dos Produtores de Sementes e Mudas (Apasem) e Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) em 2017, o agronegócio brasileiro tem um prejuízo que chega a R$ 2,5 bilhões anualmente, somente se considerarmos a pirataria.

A cultura do feijão é "líder" no uso de sementes informais no Brasil, com 90% das áreas cultivadas sendo formadas por sementes que não passaram pelos sistemas oficiais de certificação, não possuindo, portanto, o controle de qualidade nem de origem (Figura 1).

Para a soja, principal cultura comercial brasileira, 71% das lavouras são estabelecidas com sementes certificadas, sendo as restantes 29% resultantes de grãos semeados como semente, sem nenhuma garantia de qualidade, o que representa risco biológico, produtivo e econômico para as lavouras.

A diferença na qualidade da semente comercial e ilegal tem sido frequentemente relatada em diversos estudos. Cabe aqui mencionar o destacado papel dos pesquisadores do Programa de Pós Graduação em Sementes da Ufpel, da qual eu sou "cria", com muito orgulho inclusive. Há grande correlação entre a qualidade da semente e o estabelecimento de uma lavoura, tolerância a estresses ambientais como déficit hídrico e até mesmo a produtividade obtida.

Na soja, pesquisas estimam que 1,5% a menos de vigor, pode representar na perda média de uma saca por hectare. Com 15% a mais no vigor de um lote de sementes de soja, ou seja, de 60 para 75%, podemos obter 10 sacas a mais neste hectare. Isso é apenas um dentre muitos exemplos que mostram a diferença da qualidade das sementes na prática de uma lavoura.

A solução para o problema não é única e compreende um conjunto de práticas que envolvam os diferentes agentes da cadeia produtiva como maior fiscalização e responsabilidade do setor comercial, disponibilização de tecnologias, maior divulgação em dias de campo e áreas demonstrativas, conscientização dos produtores e redução de impostos, dentre outros.

Na agricultura, talvez mais do que em qualquer outra atividade, o famoso jargão "O barato que sai caro" é verdadeiro. Em um cenário cujos custos de produção estão elevados e em constante crescimento, algumas sacas a mais por hectare decorrentes do ajuste fino dos processos podem fazer grande diferença. Cordial abraço a todos.



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