11111111111111CARNE TAMBM POSSUI TERROIR

colunas

CARNE TAMBÉM POSSUI TERROIR
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: terça, 16 de julho de 2019 - Hora: 08:48

Terroir é um termo Francês que refere-se à influência das condições de solo, clima e do sistema produtivo no alimento ou bebida. Inicialmente disseminado pelos Monges Beneditinos com o vinho e atualmente está presente em diversos outros produtos como café, frutas, azeite de oliva e inclusive na carne.

A carne, como qualquer outro alimento ou bebida, espelha na sua composição química, aspectos físicos e no sabor as características do meio ambiente e do sistema em que foi produzida. Assim, carnes oriundas de sistemas a pasto tendem a ter coloração mais intensa e sabor mais marcante se comparadas com sistemas confinados. O que era por demais conhecido pelos apreciadores desta proteína, passa a ter, nos anos recentes comprovação científica de seus destacados atributos.

A carne bovina produzida em pastagens naturais do Cone Sul, em média, tem uma melhor relação ômega três e ômega seis, maior conteúdo em ácido linoleico conjugado (LCA), mais aminoácidos essenciais, antioxidantes, Ferro e Zinco quando comparada com a carne oriunda de animais confinados. Essa composição nutritiva reflete a dieta biodiversa composta por mais de 400 gramíneas e cerca de 200 leguminosas dos campos. Trata-se de um verdadeiro banquete para os herbívoros, não encontrado em nenhum outro bioma.

As carnes bovina e ovina da Argentina e do Uruguai são, há algum tempo, mundialmente conhecidas como de alta qualidade, grande sabor e suculência. Gostaria de mostrar dois exemplos recentes do reconhecimento mundial da carne bovina do Uruguai.

Em 2015 na tradicional feira de alimentos de Milão, Itália, o pavilhão Uruguaio foi dos mais visitados. No pavilhão foram apresentadas as características da proteína charrua como os cuidados com o meio ambiente, a produção e a origem. Os visitantes experimentaram ainda outros produtos da gastronomia, cultura e conheceram paisagens e tradições. Mais recentemente, no inicio de julho de 2018, em Londres, ocorreu o concurso global World Steak Challenge. Nesse evento foi apresentada a carne uruguaia Grass Fed Meat, certificada por Alianza del Pastizal e produzida por Breeders & Packers Uruguai, premiada com medalha de prata. Estes são apenas dois bons exemplos que mostram o potencial de mercado e a aceitação da carne pampeana pelos consumidores.

O mercado dos exigentes países consumidores demanda carne de animais produzida em pastagens naturais. A União Europeia é o principal demandante desse produto. Para atender a essa demanda, o Mercosul com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai vem há décadas negociando para aumentar a cota de carne bovina da região. A UE, por sua vez, pondera que a produção e o consumo geral de carne vêm diminuindo no velho continente, embora a procura pela carne de pasto ou Grass Fed Beef tende a aumentar. O recente acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia nos dá esperança de ampliarmos nossas exportações, embora inicialmente o acesso dos principais produtos do Mercosul ainda será limitado e sujeito a liberações que ocorrerão gradativamente.

Nesse aspecto, parece claro que existe questões relativas às cotas, geopolítica e padrões de qualidade da carne exportada as quais teremos que atender com maior profissionalização em todos os elos da cadeia.
A demanda atual e futura é pela "Grass Fed Beed" ou Carne de animais alimentados a pasto, com bem estar animal. Nas grandes redes varejistas mundiais esse produto tem merecido destaque especial, inclusive com cartazes e vídeos agradecendo aos pecuaristas de uma determinada região pela qualidade do produto. Realidade bem distinta à Brasileira onde, em 15 de julho, dia do pecuarista, a mídia promove a segunda sem carne.

Ainda temos muito a desenvolver e profissionalizar na cadeia da carne do Cone Sul. Não há dúvidas que precisamos conquistar novos mercados e trazer rentabilidade e sustentabilidade para o produtor. Mas isso só será possível melhorando a comunicação entre os atores envolvidos e promovendo os diferenciais deste sistema produtivo para os consumidores tanto internos como externos. Do reconhecimento pelo consumidor final depende a sustentabilidade de toda a cadeia e a conservação do mais importante recurso natural desta região, o campo nativo.

Gado Hereford produzido em pastagens naturais na fronteira Brasil-Uruguai. Imagem do autor



Venha e participe Conosco!
Deixe seu comentário,
Até a próxima.