11111111111111Diferentes produtos para distintos consumidores

colunas

Diferentes produtos para distintos consumidores
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: terça, 29 de outubro de 2019 - Hora: 18:19

É incrível a crescente oferta de produtos em um mesmo gênero, principalmente no varejo de alimentos, nas últimas duas décadas. Sou do tempo em que leite era só de saquinho, não havia as embalagens tetrapak (caixinha), tipo A, B, sem lactose, com adição de vitaminas e minerais, de soja, de coco, de arroz, etc. Essa fantástica disponibilidade de produtos alimentícios com características diferenciadas reflete a segmentação ocorrida no setor varejista global objetivando agregação de valor e conquista de mercados.

O perfil do consumidor de alimentos mudou e drasticamente. Há algum tempo o que movimentava as cadeias produtivas era a oferta, pois a produção era limitada e a demanda restrita. Além disso, o comércio de alimentos era mais regionalizado. Mais recentemente parcela significativa da população mundial, principalmente nos países emergentes, ascendeu socialmente, demandando mais e melhores produtos. Houve um aumento expressivo tanto na produtividade como na produção de grãos, hortaliças, forrageiras e frutas. Com o excedente produzido o Brasil passou de importador para um dos maiores exportadores de alimentos, fibras e bioenergia do mundo.

Além das comodities agrícolas, minerais e energéticas, que são as locomotivas motoras do país, temos nos destacado ainda na produção de orgânicos, produtos premium, especiais, artesanais, com indicação de origem, certificações, etc. Exemplos desta mudança na configuração produtiva, industrial e varejista estão nos supermercados, nas mídias, no combustível que usamos, no que comemos e até no que vestimos.

Um case interessante é o de uma rede global de frigoríficos investindo em proteína animal e em proteína vegetal, o que parece contraditório, não se entendermos que o mercado consumidor busca cada vez mais diversidade de produtos para distintos perfis de públicos e é natural que as empresas busquem se adequar para atender a todos e não perder mercados. Essa adequação passa pelo sistema produtivo que deve adotar práticas mais sustentáveis de manejo, não destruir áreas de vegetação nativa, atender às exigências em bem estar animal e leis ambientais, respeitar as leis trabalhistas, auxiliar as comunidades locais, etc. Na indústria as exigências passam pelo descarte e reciclagens de resíduos, leis ambientais e trabalhistas, utilização de energia, emissão de gases, dentre outros. Chegando na gôndala as exigências adicionais são as embalagens "eco-friendly", produtos com certificação, rastreabilidade, orgânicos, integrais, gluten free, fat free, low carbon, e muitos outros (Figura 1; Quadro 1). Sem dúvida, é uma salada variada que às vezes nos confunde, mas que traz lucro e oportunidades para a cadeia produtiva, finalizando com um consumidor cada vez mais satisfeito. Bingo. É esse o objetivo final de uma cadeia, atender às necessidades de um consumidor mais bem informado, com melhor poder aquisitivo e altamente exigente. Nesse sentido, todos os elos da cadeia precisam dar sua melhor contribuição.

Adicionalmente às novas tendências no mercado de alimentos, é recorrente o debate sobre os tipos de agricultura necessários para atender à crescente demanda associada às pressões socioambientais e éticas. Nesse sentido, entendo que tanto os sistemas produtores de comodities como os sistemas hidropônicos, integrados, manejo holístico, dentre vários outros, podem ser importantes. Todos contribuem para satisfazer as diferentes demandas do mercado, porém, cada um na sua escala, na sua configuração produtiva, especificidade tecnológica, característica ambientais, tipo de produto, logística, etc. O caloroso debate vem se mantendo mais pela sua origem político-ideológica e não pelos aspectos científicos.

Considero ainda ultrapassada a polarização sobre agricultura familiar versus empresarial. Ora, se há distintos sistemas produtivos e público consumidor com diferentes perfis e demandas é óbvio que um único sistema produtivo não será suficiente para atender a toda a demanda global. Alguns produtos serão produzidos e comercializados em escala com preços globalizados (soja, milho, carne bovina, etanol). Outros, como cafés especiais, cervejas artesanais, carnes premium, orgânicos, ocupam um segmento específico de mercado que foca na diferenciação desde o sistema produtivo até a gôndola da rede varejista, buscando agregação de valor ao produto (Quadro 1). Este mercado vem evoluindo em todos os cantos do planeta, com destaque para o continente europeu e EUA, importantes e exigentes consumidores de alimentos e produtos do agronegócio.

Concordemos ou não o mercado do agronegócio vem apresentando mudanças expressivas que surgem em rapidez meteórica. O consumidor é quem manda, ele é o condutor das cadeias produtivas. Cabe a cada elo da cadeia organizar-se para atender às novas demandas. Quem não o fizer não terá espaço no mercado global. Agradeço a leitura. Grande abraço a todos.

Figura 1. Almôndegas de insetos, salsicha feita de ingredientes vegetais e ovos líquidos de plantas, apresentados na feira Internacional de alimentos de ANUGA, Alemanha, em 2019 (Adaptado de Marcos Fava Neves).

Quadro 1. Exemplos no setor de insumos, produção e distribuição/varejo de
inovações com foco no consumidor.





Venha e participe Conosco!
Deixe seu comentário,
Até a próxima.