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O agro não é só alimento
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: segunda, 30 de março de 2020 - Hora: 14:21

A produção agrícola é a atividade mais antiga do homem. A razão para isso é óbvia,
para sobreviver todo ser vivo precisa se alimentar. Até o final do período paleolítico o
homem era caçador-coletor-pescador dependendo da obtenção de animais, raízes e frutos para sua sobrevivência, o que lhe forçava ao nomadismo.

Já no neolítico, passou a perceber que a criação de animais e o cultivo de plantas lhe permitiria uma melhor e mais segura colheita de alimentos bem como a possibilidade de armazenagem para épocas de escassez que eram bastante frequentes. Esse fato começou a moldar a formação das primeiras sociedades e a consequente organização em cidades, lideranças e política.

Portanto arelação humana com a alimentação vem de longa data e ultrapassa em muito a nutrição.
Alimento é questão de saúde, higiene, segurança, possibilidade de procriar, formação de
famílias, interação social, recuperação de doentes, reuniões, equilíbrio da economia, dentre muitos outros aspectos.
Em épocas de graves crises ao longo da história humana como a Peste Negra na
Idade Média, a Gripe Espanhola e nas duas grandes guerras mundiais o principal gargalo
para a sobrevivência e recuperação humana sempre foi o suprimento de alimento em
qualidade, quantidade e constância de fornecimento.

Em plena pandemia de Corona Vírus o mundo vê o abastecimento em risco, mesmo
nas principais economias, trazendo à tona a questão da logística de distribuição. Antes da disseminação deste vírus cerca de 900 milhões de pessoas do mundo todo já passavam fome devido a razões geopolíticas, religiosas, econômicas e sociais, principalmente.
A maior parte concentra-se na África, mas também parte no Sudeste Asiático e na América Latina.

O COVID-19 poderá agravar o problema nessas regiões e acarretar em dificuldade de
distribuição de alimentos em regiões que desde o pós-guerra não sabiam o que era
escassez. No Brasil nas primeiras semanas de disseminação do vírus o fluxo de alimentos ainda segue normal, embora o setor FLV (Frutas, legumes e verduras), além da floricultura, já sofrem sérias consequências devido à perecibilidade dos produtos e à logística precária.

Como ainda há muitas incertezas quanto às consequências sanitárias e econômicas
do COVID-19 em curto, médio e longo prazo, não há um consenso em relação às previsões.
Alguns profissionais do agronegócio apostam que em curto prazo há tendência da China de estocar produtos e com isso a demanda deve aumentar, favorecendo principalmente grandes produtores e exportadores de soja e milho como Brasil e EUA. Há ainda quem aposte que o problema sanitário causará desaceleração da economia asiática, reduzindo a importação de grãos. Assim, é possível que a demanda Chinesa seja menor, afetando países exportadores como o Brasil tanto na compra quanto no preço das comodities.

Por outro lado, o país do dragão tem elevado e crescente consumo global do grão, levando a que, mesmo em períodos de crises como este, o consumo ainda se mantenha elevado. Todas estas são possibilidades especuladas.

Em relação às carnes a Associação Brasileira de Frigoríficos (ABRAFRIGO) prevê,
inicialmente, pequeno impacto da crise do COVID-19 para a exportação de carnes
brasileiras em curto e médio prazo.
Em matéria recente do site da revista Britânica The Guardian no dia 26 de março a
ONU alerta para possível escassez de alimentos em nível global. Em função da crise
sanitária muitos países estão adotando medidas protecionistas como aumento de tarifas e restrição às exportações.

Para Maximo Toreo, economista chefe da FAO/ONU, o pior cenário é a falta de alimento, o que segundo ele é possível de ocorrer, caso sejam implementadas medidas protecionistas pelos países mais desenvolvidos. Um exemplo citado por Toreo é a Rússia, terceiro maior exportador de trigo, que poderá restringir as exportações do cereal, a exemplo do já foi feito em outras crises. Os EUA na guerra comercial do Trump com a China também deverá restringir o comércio com o país asiático.

Diversas notícias que chegam apontam que já há escassez de trabalhadores para
colher frutas e batatas no Reino Unido, frutas e hortaliças em grande quantidade estão
apodrecendo em vários países da Europa. Associações de produtores da União Europeia estão preocupadas com o futuro dos empregos e da produção de alimentos.
Ao longo dos próximos meses poderá haver falta de alimento para abastecimento da
população mundial, o que deverá elevar os preços, e a fome, aumentando aqueles 900
milhões de habitantes já em risco conforme já citado anteriormente.

Percebe-se que há diversas especulações, umas mais favoráveis ao agronegócio
Brasileiro, outras menos, mas a proposta deste texto é trazer alguns dados e informações para refletirmos e não perspectivas concretas, mesmo porque, até agora ninguém as tem.
No chamado "dentro da porteira" os produtores do Brasil seguem incansavelmente
seus trabalhos de colheita de grãos de soja, já finalizando no Centro Oeste, bem como a semeadura do milho safrinha nesta região. Apesar da intensa seca na região Sul do Brasil a safra 2019/20 deverá ser recorde, atingindo cerca de 252 milhões de toneladas de grãos, com um crescimento de 9,9 milhões de toneladas em relação a safra 2018/19, segundo a CONAB.

Segue ainda sem quarentena os trabalhos de manejo dos animais, banhos
carrapaticidas, vacina pra aftosa, brucelose, desmames, encarneiramento de ovinos, etc.
Nos cultivos perenes está em fase final a colheita da videira, cuja previsão, conforme
especialistas do setor é de que teremos uma excelente safra.
Apesar do COVID-19 temos ótimas noticias para o setor. O agro não pode parar não
é apenas um bordão setorial, mas uma questão de ética e responsabilidade de um setor que faz a engrenagem do país girar, produzir alimentos em qualidade e quantidade, gerando emprego e renda bem como excedentes para exportação.

A crise global irá passar e o mundo vai necessitar cada vez mais e melhores alimentos, fibras e energia sustentável. No Brasil o Agronegócio continuará a equilibrar a balança comercial, auxiliar na recuperação do PIB pós-crise e no fornecimento de produtos em qualidade e quantidade a um preço justo para uma população global com grande carência alimentar, nutricional e de saúde. Escassez de alimentos eleva os preços, aumenta a fome, a pobreza e a insegurança, e para isso não acontecer todo o setor agro segue a pleno vapor e com certeza será a mola propulsora para o país ultrapassar esse momento com o mínimo de dano humano e econômico.
É momento de união, cooperação e maior integração entre os elos das cadeias de
distribuição para melhor suprir a demanda por produto e evitar a escassez e os demais
problemas associados.

Atender à segurança alimentar global é o que o Brasil tem feito e seguirá fazendo
com muita competência, apesar das recorrentes crises. Sejamos otimistas, pois nosso
trabalho é bem feito e não apenas o Brasil, mas o mundo mais do que nunca precisa de nós.

Muito obrigado.
Instagram :@benevengasarmento
Foto: Agropecuária San Diego



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