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Semente: muito mais que um insumo
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: sexta, 24 de novembro de 2017 - Hora: 11:08

Dentre os insumos necessários à agricultura não duvido em afirmar que a semente é o principal. Inicio este texto repetindo um jargão agronômico “a semente não é um grão que germina”, mas um ser vivo que possui importantes atributos genéticos, físicos, fisiológicos e sanitários.
Os atributos genéticos referem-se às características que foram selecionadas pelo melhorista ao longo de anos de pesquisa e que devem expressar-se positivamente na lavoura. Os caracteres físicos correspondem à cor, tamanho, forma, textura, sementes quebradas, presença de terra, palha, areia, flores, vagens, etc. Em termos fisiológicos todo lote de sementes para condução de uma boa lavoura deveria ter elevada germinação, vigor e viabilidade.
A germinação é obtida em laboratório em condições ótimas de temperatura, substrato, umidade e luz e demonstra a máxima capacidade germinativa do lote, o que dificilmente pode ser atingido em condições de campo. O vigor, por sua vez, é testado em condições desfavoráveis como frio, calor, excesso de umidade, que são comumente encontradas nas lavouras, exigindo com isso grande capacidade da semente em superá-las. Por fim, a viabilidade corresponde ao percentual de sementes vivas de um lote. Os aspectos sanitários envolvem a presença ou ausência de patógenos, pragas e sementes de ervas indesejáveis.
Ao longo da evolução agrícola pouca atenção tem sido dada à qualidade das sementes para formação de uma lavoura. Nas últimas décadas, em função da maior competitividade da agricultura, pesquisadores, técnicos e agricultores passaram a perceber que a semente não é apenas mais um insumo, porém o principal.
Mais recentemente, diversas pesquisas têm demonstrado que a qualidade diferenciada de um lote de sementes pode refletir-se em um desempenho melhor a campo. Trabalhos realizados na Ufpel envolvendo sementes de soja demonstraram que lotes com alto vigor produzem em média 30% a mais que lotes de baixo vigor. A Figura 1 mostra um lote de sementes de alta qualidade sanitária e um lote de baixa qualidade. A Figura 2 compara um lote de sementes sadias de soja com outro apresentando diferentes tipos de dano.
Embora o vigor ainda não seja obrigatório para a comercialização de sementes no Brasil ele deveria ser exigido pelo produtor, pois sementes de alta germinação muitas vezes exibem baixo vigor a campo, o que é observado na reduzida emergência em temperaturas baixas, no fraco e lento estabelecimento da lavoura e no pouco desenvolvimento inicial das plantas.
O pesquisador da Embrapa, José de Barros França Neto cita como grandes evoluções tecnológicas para sementes de soja, o uso de época de semeadura específica para produção de sementes; antecipação da colheita, com 17-19% de umidade; lançamento de novas variedades que, além de produtivas, apresentam melhores qualidades fisiológica e física da semente; aplicação de fungicidas foliares para o controle das doenças de final de ciclo e da ferrugem asiática; melhor correção nutricional da lavoura; melhor controle de percevejos e outras pragas; colheita com menos danos mecânicos e menores perdas; novas técnicas de secagem; equipamentos melhorados e específicos para o beneficiamento das sementes; melhores técnicas para a semeadura; tratamento das sementes com fungicidas, inseticidas, polímeros, corantes, micronutrientes e inoculantes. Estima-se que 95% das sementes de soja são tratadas com fungicidas e que cerca de 40% das mesmas já estejam sendo comercializadas com o Tratamento Industrial de Sementes (TIS).
Com essa gama de tecnologias associadas, a semente hoje é considerada um chip, pois contém características genéticas únicas como genes para adaptação, teor de óleo e proteínas, rusticidade, resistência a doenças e pragas, qualidade diferenciada, tolerância a insetos e a herbicidas, rendimento de grãos, dentre outros. Deste modo, a semente de uma variedade superior não pode ser considerada pelo seu custo, mas sim pelo seu valor, que compreende o conjunto dos atributos da qualidade acima mencionados que farão a diferença na sua lavoura e no seu bolso. Eles irão permitir ao agricultor estabelecer mais rapidamente e uniformemente sua lavoura, formar plantas sadias e obter maior eficiência fotossintética, transformando assim, os recursos ambientais em maior rendimento por hectare e, consequentemente, em maior retorno financeiro. Continuem acompanhando nossos textos.
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