11111111111111Leguminosas: a fantstica fbrica de nitrognio...

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Leguminosas: a fantástica fábrica de nitrogênio...
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: domingo, 18 de fevereiro de 2018 - Hora: 09:15

Leguminosas são plantas pertencentes à família botânica Fabaceae, anteriormente denominada Leguminosae. São caracterizadas principalmente pela presença de legumes (vagens) e pela fixação biológica do nitrogênio. Estas espécies são fundamentais em qualquer sistema produtivo, na alimentação animal e humana. Na alimentação humana são grãos altamente nutritivos e sua importância foi reconhecida pela FAO ao estabelecer o dia 10 de fevereiro como o Dia Global dos Pulses, assim chamadas as leguminosas secas como feijão, lentilha, ervilha e grão de bico.

O principal diferencial das leguminosas é a fixação do N2 (nitrogênio). O N2 é o principal elemento na atmosfera, compondo ao redor de 75%, seguido pelo oxigênio com 21% e gás carbônico com 0,03%. O azoto (nitrogênio) é o elemento que mais limita a produção agrícola, o de mais elevado custo e de maior impacto ambiental.
Apesar de ser um elemento essencial às plantas e da alta disponibilidade na atmosfera as plantas não conseguem absorvê-lo na sua forma gasosa necessitando para isso do auxílio de bactérias. Elas atuam em simbiose com as raízes das plantas leguminosas transformando o N2 atmosférico em amônia solúvel (NH3) e NO3- (nitrato), formas mais facilmente assimiláveis do nitrogênio. Na simbiose a planta fornece foto-assimilados à bactéria, em contrapartida recebe nitrogênio para síntese de proteínas.

Os principais gêneros de bactérias fixadoras do nitrogênio em leguminosas são o Rhizobium, característico de espécies de clima temperado como trevo branco, cornichão e alfafa e Bradyrhizobium, presente em algumas leguminosas de clima tropical como a soja.
Os antigos romanos já sabiam da importância das leguminosas como adubo verde benéfico para os solos e culturas em sucessão. Para eles, as terras que tiveram cultivo de leguminosas eram mais produtivas e mais saudáveis.
Em escala comercial, as primeiras pesquisas que investigaram o uso de bactérias na fixação do nitrogênio em plantas foram feitas pela bióloga Tcheca naturalizada brasileira, Johanna Döbereiner, trabalhando com gramíneas e leguminosas nas décadas de 50 e 60. Mais recentemente, o potencial de fixação biológica do nitrogênio também tem sido explorado comercialmente em gramíneas como o arroz, milho, sorgo, trigo e brachiária, embora utilize processos fisiológicos distintos ao que ocorre nas leguminosas.

Além da fixação do nitrogênio as leguminosas são utilizadas no controle da erosão, recuperação de áreas degradadas, uso em rotação, sucessão e consorciação de culturas, melhoria da qualidade da dieta animal, redução de custos de produção e no equilíbrio da relação carbono-nitrogênio no solo. Contribuem também na melhoria da estrutura e da fertilidade do solo, aumentando com isso a rentabilidade da agricultura e da pecuária. Ainda, em termos de nutrição animal as leguminosas, na média, são mais ricas em proteínas, vitamina A e minerais quando comparadas com gramíneas, o que se traduz por elevados ganhos de peso pelos animais.

Na região Sul do Brasil já é consagrado o uso de pastagens consorciadas de azevém anual ou aveia com leguminosas como trevo branco, trevo vermelho e cornichão, constituindo um dos sistemas produtivos mais eficientes para produção animal no período inverno-primavera.
Não apenas as leguminosas cultivadas cumprem um papel relevante, mas também as nativas. Os campos do Bioma Pampa possuem diversas leguminosas autóctones, que, embora ocorram em baixo percentual, cumprem um papel qualitativo e ecológico importante. Cabe destacar os gêneros Desmodium (pega-pega), Adesmia (babosas), Trifolium (trevos). Além destes, também ocorrem com boa frequência algumas espécies exóticas naturalizadas como Medicago polymorpha, muitas vezes confundida com os trevos nativos.

Diversas pesquisas demonstram a contribuição das leguminosas forrageiras no aumento da qualidade de forragem e na redução da idade de abate. Porém, como tudo que é bom sempre tem um lado negativo, as leguminosas possuem baixa persistência, difícil manejo de pastoreio, maior exigência em fertilidade e calagem e baixa produção de sementes. Algumas espécies possuem ainda fatores antinutricionais como alcaloides e compostos fenólicos, que conferem um sabor amargo à forragem, inibindo o consumo animal e o ganho de peso.

A Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN) é amplamente reconhecida na agricultura global, sendo seu uso incentivado por órgãos como FAO, EMBRAPA, universidades e institutos de pesquisa renomados. Como incentivo ao uso de leguminosas nos sistemas produtivos brasileiros o governo implantou, em 2012, o plano ABC do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) objetivando, dentre outras metas, reduzir o uso de nitrogênio fóssil na agricultura e aumentar a área de cultivo com plantas fixadoras de nitrogênio, aumentando, assim, a sustentabilidade da agricultura.

Embora a relevância da presença de leguminosas nos sistemas produtivos a magnitude dos benefícios decorrentes da fixação do nitrogênio é bastante variável, dependendo de fatores como escolha da semente e variedade utilizada, local de plantio, estirpe e especificidade do inoculante, clima, tempo entre inoculação e semeadura, clima e solo pós-semeadura, adubação, manejo de desfolha, dentre outros.
Sob condições adequadas de manejo as leguminosas podem contribuir com 200-300 kg de N2/ha-1/ano, com benefícios financeiros e ambientais significativos. Na cultura da soja, por exemplo, ao redor de 90% do nitrogênio utilizado tem origem exclusivamente na fixação simbiótica. Conforme pesquisas da EMBRAPA, para obter-se um rendimento de 3000 kg/ha-1 a soja precisa em média de 240 kg de nitrogênio, o que pode ser obtido, na sua maioria, pela fixação com as bactérias Bradyrhizobium. A seleção genética de bactérias eficientes na fixação do nitrogênio tem contribuído para a elevação nos patamares de produtividade da soja e de outras culturas.

Com a crescente busca por uma agricultura sustentável e segura o uso de leguminosas torna-se cada vez mais essencial independentemente do sistema produtivo considerado. As vantagens vão desde a melhoria na fertilidade do solo, redução dos resíduos de adubos nitrogenados e maior produtividade. Cada situação e propriedade tem uma configuração específica de manejo, porém, o uso de espécies leguminosas é imprescindível à sustentabilidade de todo sistema produtivo. Até a próxima.

Foto1: Trevo nativo (Trifolium polymorphum Poir.) em plena floração primaveril.

Foto2: Babosinha (Adesmia bicolor Poir. DC.) em estado vegetativo.



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