11111111111111Mais que um preparador, a alma gmea dos cavalos

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Mais que um preparador, a alma gêmea dos cavalos

Data: quinta, 14 de janeiro de 2021 - Hora: 18:26

Na comunidade crioulista, existem algumas pessoas que são verdadeiros contadores de história. Não no sentido pejorativo da expressão, mas no real. São pessoas que viveram experiências incríveis, que possuem grande conhecimento e que lembram de fatos importantes e pitorescos. Uma destas pessoas é Maico Giovani Almeida Pinto.  Ele é cabanheiro, preparador de cavalos para exposições morfológicas e possuidor de um dom incrível de contar histórias.  Nascido em Aceguá, o jovem de 31 anos atua em Triunfo, na Cabanha Três Figueiras. 

E por que não começar com a da vida dele? 

Vindo de uma família simples, mas que teve a criação de cavalos para serviço como base, Maico aprendeu com o avô que é preciso respeitar o animal e ser respeitado por ele.  Os familiares contam que começou a montar aos dois anos, pois se criou “pendurado num cavalo”. Dali para frente foi natural sua paixão e o rumo profissional que teria. 

Ele lembra que a paixão pelo crioulo surgiu ao assistir na televisão reportagens sobre a raça. “Foi no bater, sabe? Aos 12 anos, aquelas reportagens me despertaram algo. Me apaixonei. Fiquei doente pelo crioulo. Aquela habilidade, a cola farta, aquela crina...”, relembra. Aos 14, depois de pesquisar bastante, ele já sabia o que queria: um cavalo crioulo. Para isto, começou a juntar dinheiro. Foi trabalhar fora do negócio da família, com bicos. “Comprei minha primeira égua vendendo pastel!”, fala com orgulho. 





O cabanheiro tem por filosofia que os potros devem ser tratados como aquilo que realmente são, crianças. “Eu gosto de preparar incentivos, mas a precocidade tem se aflorado muito”, pondera. Segundo ele, alguns animais estão sendo colocados dentro de cocheiras com seis meses de idade. “Sou contra pegar um potrilho desta idade, botar para dentro de casa, dar comida e trabalho. Não. A gente está falando de uma criança!”, argumenta. Neste pensamento, Maico recomenda que o pequeno seja iniciado com trabalho moderado, como um trote à cabresto, mas nunca em redondel.  “Jamais! Isto detona aprumos”, alerta. Salienta, ainda, que a movimentação em círculos prejudica a cartilagem, força mais para um lado do que para o outro e compara este tipo de trabalho a colocar uma criança em uma academia para fazer musculação. 

Quando o cavalo nasce, Maico diz que já fica de olho. “Vou pela genética. Este é filho do macho tal com a égua tal, tem que dar! E passo a acompanhar desde potrilho, colocando em um potreiro melhor, separo dos demais, reforço a alimentação de qualidade”, conta. Mantendo ao pé da mãe, ele amanuncia o potrilho, ensina a caminhar. Após os desmame, o cavalo vai para um potreiro com boia até que esteja pronto para iniciar o trabalho, com um ano e meio. Contudo, ele ressalta que ter a melhor genética não garante que o acasalamento vai dar certo. “Às vezes não dá”, lamenta. 

Entre as técnicas utilizadas no seu trabalho, Maico dá muita importância ao nado. “Além de dar preparo físico, desenvolver fôlego, nadar auxilia na definição da musculatura”, afirma, destacando a natação como uma das atividades básicas para o preparo morfológico.  

Sem preferência para treinar macho ou fêmea, Maico apenas diz gostar mais de animais que tenham “uma sobra de gás”, um pouco mais acelerado, ativo, com o qual pode ser feito um trabalho de chegar ao meio termo. Um cavalo muito calmo, às vezes entra na pista e “se adormece”, disse ele. “Me aconteceu na prévia do ano passado. Pela manhã eram os machos. A temperatura estava excelente para se trabalhar. À tarde, a temperatura virou. Eu tinha uma fêmea muito mansa e no nível das potrancas menores concorrentes era muito grande. Quando chegou a vez dela, já estava estafada com o calor e ela acabou “se adormecendo” um pouco”, conta. 

Cheio de muitas histórias para contar, o cabanheiro afirma que nada é por acaso na vida. Em seguida, traz outra lembrança à tona. Diz que, anos atrás, cuidou e preparou para ser marcado Sedutor Tupambaé, da Cabanha  Tupambaé de Osvaldo Pons. “Eu e seu Osvaldo o colocamos no reboque e levamos para Esteio, onde ganhou o segundo prêmio naquela prévia. E durante todo o caminho, seu Osvaldo falava numa égua chamada Palha Brava Tupambaé. Quando voltamos com o Sedutor pra casa, e na segunda-feira a égua chegou lá”, relembra. Era um presente de Osvaldo Pons para ele. “E eu tive o prazer e a honra de preparar e trazer para Esteio, dois anos seguidos, Aguapé Tupambaé, um filho de Sedutor Tupambaé”, conta. Antes de ganhar a Palha Brava Tupambaé, Maico conta que a primeira égua que teve era filha de Nobre Tupambaé numa mãe Santa Cruz insólito, um acasalamento usado pela Cabanha Tupambaé. 





Antes de contar outra história referente ao crioulo, Maico disse que o cabanheiro  é a alma gêmea do cavalo, por 24h por dia.  A égua que o conhecia pela voz é um animal que ele tratou desde pequena, com a qual ganhou vários Incentivos (Incentiva é uma categoria de exposição morfológica não oficial, com critérios de julgamento definidos pelos Núcleos Regionais da ABCCC, onde participam animais de até dois anos) e, ao passar dos dois anos, começou a competir como Potranca Menor e a ganhar prêmios também nesta categoria. “Na última saída, antes de ser vendida, conquistei com ela o Cabresto de Ouro da Cabanha Caratuva. E sabe por quê? Ela tinha um brilho diferente e os jurados diziam que não andava, mas sim desfilada. Uma égua diferente! E nossa relação era especial, pois se outro botasse a mão, ela travava”, relata o profissional, destacando a cumplicidade como fundamental para a realização de uma boa apresentação em pista. 

E para poder acompanhar o dia-a-dia e saber tudo que se passa com o animal que está preparando, ele diz que prefere, por exemplo, ele mesmo limpar a cocheira do cavalo. “Se eu arrumo a cama, sei como ele passou a noite ao ver a cama revirada ou não no dia seguinte”, explica. 

Como toda tradição, sempre há um ponto de partida. O surgimento dos centros de preparo morfológicos, é outra das histórias que Maico quer contar, mas tem como personagem central, Erasmo Falcão. “Ele é um dos que mais entende da raça hoje, levou Impulso de Pai Passo a ser Grande Campeão da Morfologia Expointer”, lembra, destacando que é preciso olhar para o futuro, mas respeitando o passado. 



Fotos: 1. Maico com Aguapé Tupambaé /Fagner Almeida

2. Maico em trabalho com um potrilho/ arquivo pessoal

3. Maico e VV Delantero JR/ Giovan Vieira




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